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Entenda a importância da avaliação laboratorial da vitamina D, qual exame deve ser solicitado, como interpretar os resultados e por que a suplementação infantil precisa ser individualizada.

A vitamina D, popularmente conhecida como “vitamina do sol”, exerce funções essenciais no organismo. Ela participa da absorção de cálcio e fósforo, da mineralização dos ossos e da prevenção do raquitismo, além de atuar em diferentes processos relacionados ao sistema imunológico, à função muscular e ao desenvolvimento global da criança.

Embora sua importância para a saúde óssea esteja bem estabelecida, a vitamina D também vem sendo estudada por sua possível participação na imunidade, no sono, no humor, no comportamento e no neurodesenvolvimento. Entretanto, esses efeitos extraósseos ainda são objeto de pesquisa e devem ser interpretados com cautela.

Por isso, mais importante do que buscar um número isolado é compreender o resultado dentro do contexto clínico de cada criança.

Qual exame avalia os níveis de vitamina D?

O exame indicado para avaliar o estado nutricional da vitamina D é a dosagem sanguínea da:

25-hidroxivitamina D — 25(OH)D

Também chamada de calcidiol ou calcifediol, essa é a principal forma circulante e de reserva da vitamina D no organismo.

Já a dosagem da 1,25-di-hidroxivitamina D — 1,25(OH)₂D, ou calcitriol, não deve ser utilizada rotineiramente para investigar deficiência. Seus níveis podem permanecer normais ou até elevados mesmo quando os estoques de vitamina D estão baixos.

A 1,25(OH)₂D costuma ser reservada para situações clínicas específicas, como algumas doenças renais, distúrbios da paratireoide e alterações raras do metabolismo da vitamina D.



Qual exame avalia os níveis de vitamina D?

O exame indicado para avaliar o estado nutricional da vitamina D é a dosagem sanguínea da:

25-hidroxivitamina D — 25(OH)D

Também chamada de calcidiol ou calcifediol, essa é a principal forma circulante e de reserva da vitamina D no organismo.

Já a dosagem da 1,25-di-hidroxivitamina D — 1,25(OH)₂D, ou calcitriol, não deve ser utilizada rotineiramente para investigar deficiência. Seus níveis podem permanecer normais ou até elevados mesmo quando os estoques de vitamina D estão baixos.

A 1,25(OH)₂D costuma ser reservada para situações clínicas específicas, como algumas doenças renais, distúrbios da paratireoide e alterações raras do metabolismo da vitamina D.

Toda criança precisa fazer exame de vitamina D?

Não necessariamente.

A dosagem da 25(OH)D não é indicada como rastreamento universal para todas as crianças saudáveis. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que a avaliação laboratorial seja direcionada principalmente às crianças e aos adolescentes com fatores de risco para hipovitaminose D.

Entre as situações que podem justificar a investigação estão:

  • prematuridade;

  • pouca exposição à luz solar;

  • pele mais escura;

  • obesidade;

  • dietas muito restritivas;

  • seletividade alimentar importante;

  • síndromes de má absorção intestinal;

  • doença celíaca;

  • doença inflamatória intestinal;

  • fibrose cística;

  • doenças hepáticas ou renais;

  • uso prolongado de corticoides, anticonvulsivantes e outros medicamentos;

  • sinais clínicos ou laboratoriais sugestivos de alteração do metabolismo ósseo;

  • acompanhamento de uma deficiência previamente diagnosticada;

  • necessidade de monitoramento durante um tratamento individualizado.

Portanto, a decisão de solicitar o exame de vitamina D na infância deve considerar a história clínica, a alimentação, o crescimento, os medicamentos utilizados, a presença de doenças associadas e os demais resultados laboratoriais da criança.

Como interpretar o resultado da vitamina D?

Não existe consenso absoluto entre todas as sociedades médicas sobre os pontos de corte da 25(OH)D. As faixas podem variar conforme a diretriz utilizada, o método do laboratório, a idade e a presença de fatores de risco.

Uma classificação frequentemente empregada na prática clínica é:

Classificação25(OH)D
DeficiênciaMenor que 20 ng/mL
InsuficiênciaEntre 20 e 29 ng/mL
SuficiênciaA partir de 30 ng/mL
Nível elevado, com risco de toxicidadeAcima de 100 ng/mL

A conversão utilizada é:

1 ng/mL = 2,5 nmol/L

Assim, 20 ng/mL correspondem a 50 nmol/L, enquanto 30 ng/mL correspondem a 75 nmol/L.

Essas faixas, entretanto, não devem ser analisadas isoladamente. Um resultado abaixo de 20 ng/mL pode exigir avaliação complementar com cálcio, fósforo, magnésio, fosfatase alcalina e paratormônio, especialmente quando há suspeita clínica de raquitismo ou alteração da mineralização óssea.

Da mesma forma, um valor acima de 100 ng/mL não confirma sozinho uma intoxicação, mas exige investigação cuidadosa, principalmente quando existe suplementação em doses elevadas. A toxicidade está geralmente relacionada à hipercalcemia e pode provocar sintomas gastrointestinais, fraqueza, desidratação e comprometimento renal.

Existe um nível ideal de vitamina D para crianças?

Essa é uma questão que ainda gera debates.

As diretrizes mais conservadoras concentram-se na prevenção da deficiência, do raquitismo e das alterações do metabolismo ósseo. Para determinados grupos de risco, algumas referências brasileiras consideram desejável manter a 25(OH)D entre 30 e 60 ng/mL.

Em minha prática clínica, dependendo da história, dos fatores de risco e dos objetivos do acompanhamento, posso trabalhar de maneira individualizada com níveis entre 40 e 60 ng/mL, sempre com avaliação laboratorial e acompanhamento médico.

Isso não significa que todas as crianças precisem atingir essa faixa, nem que valores progressivamente mais altos produzam benefícios maiores. A meta precisa ser estabelecida de acordo com a condição clínica, a alimentação, o uso de suplementos e os riscos individuais.

O objetivo não é perseguir um número a qualquer custo, mas garantir adequação nutricional com segurança.

Vitamina D, TEA, TDAH e neurodesenvolvimento

A vitamina D participa de processos biológicos relevantes para o desenvolvimento cerebral, a regulação imunológica e a função neuronal. Estudos observacionais encontraram associação entre níveis mais baixos de vitamina D e alguns transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Alguns estudos de suplementação também sugerem possíveis benefícios sobre determinados sintomas, mas os resultados ainda são heterogêneos e não permitem considerar a vitamina D um tratamento específico para TEA ou TDAH.

Na prática, isso significa que identificar e corrigir uma deficiência é importante para a saúde global da criança, inclusive quando ela apresenta um transtorno do neurodesenvolvimento. Contudo, a suplementação não substitui as intervenções médicas, terapêuticas, educacionais e comportamentais indicadas para cada caso.

O que pode influenciar os níveis de vitamina D?

Diversos fatores podem interferir na produção, absorção e utilização da vitamina D.

Exposição solar

A exposição aos raios UVB participa da produção cutânea de vitamina D. Entretanto, não existe uma recomendação única de minutos de sol que seja segura e suficiente para todas as crianças.

Horário, estação do ano, latitude, quantidade de pele exposta, pigmentação, idade e uso de roupas ou protetor solar modificam significativamente essa produção. A exposição solar não protegida não deve ser incentivada como única estratégia para manter níveis adequados de vitamina D.

Pigmentação da pele

A melanina reduz a eficiência da síntese cutânea de vitamina D. Por isso, crianças com pele mais escura podem apresentar maior risco de níveis reduzidos, especialmente quando há pouca exposição ao ar livre.

Estação do ano e localização geográfica

Durante o inverno e em regiões com menor incidência de radiação UVB, a produção de vitamina D pela pele pode diminuir.

Alimentação

Poucos alimentos contêm quantidades naturalmente significativas de vitamina D. Peixes gordurosos, gema de ovo e alimentos fortificados podem contribuir, mas nem sempre são suficientes para atender às necessidades da criança.

Obesidade

Crianças e adolescentes com obesidade apresentam maior frequência de níveis reduzidos de 25(OH)D. Diferentes mecanismos podem estar envolvidos, incluindo distribuição da vitamina no tecido adiposo, menor exposição solar e alterações metabólicas.

Condições gastrointestinais, hepáticas e renais

Doenças que causam má absorção intestinal podem diminuir a absorção da vitamina D. O fígado e os rins também participam de sua conversão em diferentes metabólitos, razão pela qual doenças nesses órgãos exigem avaliação individualizada.

Medicamentos

Anticonvulsivantes, corticoides e alguns outros medicamentos podem interferir no metabolismo da vitamina D e aumentar o risco de deficiência.

Quando a suplementação de vitamina D é necessária?

A suplementação pode ser indicada para prevenção, correção de deficiência ou manutenção de níveis adequados. A dose, entretanto, varia conforme:

  • idade;

  • peso;

  • alimentação;

  • resultado da 25(OH)D;

  • presença de obesidade;

  • capacidade de absorção intestinal;

  • doenças associadas;

  • medicamentos em uso;

  • dose de vitamina D já presente em fórmulas, polivitamínicos ou outros suplementos.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda suplementação preventiva de 400 UI ao dia para crianças menores de um ano e 600 UI ao dia entre um e 18 anos, considerando também a ingestão proveniente de alimentos e produtos fortificados. Crianças pertencentes a grupos de risco podem necessitar de doses diferentes, definidas individualmente.

Doses terapêuticas para corrigir deficiência não devem ser iniciadas ou mantidas por conta própria. O excesso de vitamina D pode provocar hipercalcemia e complicações renais.

Também é importante somar todas as fontes utilizadas. Não é raro que uma criança receba vitamina D em mais de um produto sem que a família perceba.

Por que acompanhar mesmo durante a suplementação?

Nas crianças que apresentam indicação clínica de monitoramento, a avaliação laboratorial ajuda a verificar:

  • se a dose utilizada está sendo suficiente;

  • se houve resposta ao tratamento;

  • se a suplementação está sendo administrada corretamente;

  • se existe dificuldade de absorção;

  • se há necessidade de ajustar a dose;

  • se os níveis estão se aproximando de uma faixa excessiva.

A necessidade e o momento da repetição do exame devem ser definidos pelo médico. Nem toda criança que recebe uma dose preventiva precisa realizar dosagens frequentes.

Avaliação individualizada faz diferença

A vitamina D é importante para a saúde óssea, mas sua avaliação não deve se resumir a prevenir o raquitismo ou a perseguir um valor laboratorial isolado.

O resultado precisa ser interpretado em conjunto com a alimentação, o crescimento, a composição corporal, o desenvolvimento, os sintomas, as condições clínicas e os demais exames da criança.

A suplementação infantil pode ser necessária em muitos casos, mas deve ser realizada com indicação adequada, acompanhamento profissional e atenção à dose total recebida.

Se você deseja avaliar os níveis de vitamina D do seu filho ou entender se a suplementação atual está adequada, agende uma consulta para uma avaliação pediátrica e nutricional individualizada.

Dra. Joyce Borba Marques
Pediatra e nutróloga pediátrica
CRM-SP 178400 | RQE 63852 e 63852-1